TOPO Header Ads

SUGESTÕES E OPINIÕES ENVIE PELO WHATSAPP 55 98134 - 2776

22 novembro, 2017

Algo entre Francisco e José, e todos nós! Por Rafael Camargo

      Gilberto Freyre em “casa-grande & senzala” (1933) tenta mostrar aspectos da sociedade brasileira que embase seu pensamento de “democracia racial” existente no Brasil. Fruto do processo de miscigenação, processo pelo qual em linhas gerais o brasileiro despiu-se de preconceitos étnicos e transformou-se em uma sociedade de certo modo igualitária, teoria contestada em “Raízes do Brasil” (1936) de Sérgio Buarque de Holanda. Desde a publicação destas obras, o debate sobre a questão tem produzido reflexões e estudos sobre a temática e o período escravista brasileiro.         
  
Em um primeiro momento a tentativa portuguesa foi de escravização da população indígena, pratica que não produziu resultado satisfatório a Coroa de Portugal, uma vez que a cultura dos povos indígenas não se adaptou as praticas nas quais os invasores lusitanos necessitavam, para que a terra fosse produtiva à seus olhos. 
      
 “Os primeiros escravos negros chegaram ao Brasil com a expedição de Martim Afonso de Souza em 1530, vindos da Guiné” (DUARTE, Eliane Cristina 2015), desde então a vinda de pessoas escravizadas do continente africano tornou-se frequente, lucrativa e repleta de crueldades e contradições, lutas, encontros e desencontros [...] Antes de falar destes encontros, primeiro gostaria versar sobre conflito, talvez o mais famoso dentre os ocorridos em território nacional.       
       
Entre os anos de 1605-1694 aproximadamente, um pequeno grupo de escravizados fugidos, liderados inicialmente por Acotirene, fundaram na Serra da Barriga uma comunidade, à qual conhecemos por Palmares. Entretanto não é Acotirene, tão pouco, seu sucessor Ganga Zumba, que se transforma em símbolo de combate ao preconceito e valorização da identidade negra nacional.     
       
Embora, ambos lideres Palmarinos citados acima tenham em sua biografia um histórico de combate ao domínio escravista sobre seu povo, o menino batizado por um padre como Francisco, transformar-se-ia em um líder temido entre os latifundiários da região e respeitado pelos Palmarinos que resistiam ao avanço de tropas com intuito de acabar com Palmares. Francisco mesmo quando estava no “domínio” escravista, desejava voltar ao convívio de sua família, seu destino desejado era Palmares. Aos 15 anos, consegue fugir e chegar a Palmares.  Volta ele a ser livre, volta ele a ser Zumbi (1665-1695) [...] Hoje o conhecemos como Zumbi dos Palmares, símbolo de luta e resistência. Como de costume durante o período. Assassinado, Zumbi foi decapitado e sua cabeça em estado de decomposição exposta em praça pública como forma de amedrontar possíveis novos revoltosos.

    Com o assassinato de Zumbi, Palmares acaba rapidamente e o destino de seus moradores é a morte ou a escravização.
A história de Zumbi serve como inspiração ao Movimento Negro Brasileiro para a adoção do 20 de Novembro, data de sua morte, como dia destinado as celebrações e reflexões destinadas ao “dia da consciência negra”.

O segundo personagem deste texto é José, José Carlos do Patrocínio (1854-1905) mais um a erguer-se contra o escravismo brasileiro, filho de um vigário e uma escravizada, coube a ele um combate aos moldes diferentes de Zumbi. José usou os meios de seu tempo. A literatura, os jornais e a militância aberta contra o sistema escravista que vigorava no Brasil do Séc. XIX.

       José do Patrocínio torna-se representante destacado na luta contra o fim do escravismo e reconhecido intelectual de seu tempo. Alguns pesquisadores acreditam que a amizade dele para com a Princesa ajudou ao convencimento dela em assinar a “Lei Áurea”, assinada em 13 de Maio de 1888, no Rio de Janeiro.

     O caminho foi longo, desde 1530 até 1888, exatos 358 anos desde o desembarque oficial dos primeiros africanos na costa litorânea brasileira. Entre a morte de Zumbi e o nascimento de José do Patrocínio se passaram 159 anos, e varias revoltas contra o sistema Colonial e Imperial.

   Varias outras pessoas participaram destes movimentos, a grande maioria repousa no esquecimento histórico.

     José do Patrocínio, Zumbi dos Palmares e muitos outros ainda são lembrados e suas histórias servem de exemplo para a luta contra o preconceito étnico-racial. Cabe a nós fazermos uma reflexão sobre a história nacional desde os primeiros anos da chegada de Europeus na costa do Atlântico Sul. Pensarmos e questionarmos se depois de tantos anos, o Brasil atingiu o estado de uma nação igualitária e livre de preconceitos. Alcançou? O que tem em nós de, José ou Francisco? Qual a sociedade que queremos deixar a nossos filhos?

O Brasil ainda é permeado de preconceitos diversos, muitos idênticos aos já existentes no período escravista. Existe muito a se debater, dialogar, evoluir [...] pensar e repensar. Que o 20 de Novembro seja não apenas o dia para lembrarmo-nos dos feitos de Zumbi dos Palmares, que seja também um dia para lembrarmos que ainda existe muito a se fazer, para que de fato nossa sociedade seja realmente igualitária e fraterna. Que dentro de cada um de nós viva um pouco destes e de outros seres que tentaram a seu tempo promover, mesmo que de forma isolada, a busca por uma sociedade mais justa.


20 de Novembro, dia nacional da consciência negra, que ele nos traga junto consigo um 21 de Novembro, ainda reflexivo e questionador, assim como o 20 de Novembro ,também precisa ser. 

Créditos: Rafael Camargo - Professor de História